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Publicado em 23 de fevereiro de 2008

MUSICOTERAPIA, CULTURA E IDENTIFICAÇÕES: POR UM CONHECIMENTO POLÍTICO: “YO TENGO TANTOS HERMANOS QUE NO LOS PUEDO CONTAR
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Marly Chagas        



Cada cual con sus trabajos,
con sus sueños cada cual,
con la esperanza delante,
con los recuerdos, detrás.

Yo tengo tantos hermanos,
que no los puedo contar.



Em nossa América latina, sabemos bem do que trata a heterogeneidade cultural. Nossas tradições se misturam com as europeias de nossos colonizadores, com as indígenas nativas, com as dos inúmeros migrantes – escravos ou trabalhadores, estudantes ou aventureiros que produziram nossas cultras nacionais. Nossa diversidade se constróe em contato com a influênica da música americana, brasileira, das produzidas nos guetos pobres, nas favelas, nos cultos religiosos, nos jogos de futebol e nas cerimônias da mercosul. Nossas subjetividades se constróem em misturas. Como será o resultado do esforço de se escutar todas as vozes, com suas entonações variadas? Na opinião de Walzer, citado por Canclini, o resultado “no es una música armoniosa–contrariamente a la antigua imagen del pluralismo como sinfonía en la cual cada grupo toca su parte – sino una cacofonía”, um conceito que se aproxima ao de dissonância, que inclui possibilidades do torpe, do imundo e do desagrado . Um dos vetores para esta dissonância é o resultado de uma perversa distribuição de renda em nosso mundo (Sader, 2000). Só para citar um exemplo, o gasto real em consumo público e privado no século pasado aumentou treze vezes - de 1,8 bi¬lhão para 24 bilhões de dólares, aumento especialmente concentrado na segunda metade do século XX. Porém, se cresceu o gasto em conumo público e privado, a população mundial também cresceu ,de menos de dois bilhões em 1960, para mais de seis bilhões em 2000. Vinte porcento desta população foi excluída do crescimento do consumo. Isto é:



“4,4 bilhões de habitantes dos países da periferia do capitalismo, quase 2,7 bilhões (três quintos) não dispõem de saneamento básico, quase um terço não tem acesso a água limpa, 1,1 bilhão (um quarto) não tem casa adequada. Um em cada cinco desses 4,4 bilhões de habitantes não conta com servi¬ços básicos de saúde, uma em cada cinco crianças não consegue cursar a escola até a quinta série. Cerca de 20% não têm energia e proteínas sufici¬entes em sua dieta. No mundo todo há 2 bilhões de pessoas anêmicas, incluídos 5,5 milhões nos países de capitalismo avançado.
A metade da população do mundo - cerca de 3 bilhões de pessoas ¬vive subalimentada, enquanto outros 10% sofrem graves deficiências ali¬mentícias, totalizando 60% dos habitantes do planeta com algum tipo de problema de nutrição. De outro lado, 15% das pessoas do mundo estão superalimentadas. Alimentos não faltam, há excedentes agrícolas - confor¬me os critérios de mercado, não das necessidades humanas - de 15%. Só são utilizados para a agricultura 11% da superfície total da Terra, isto é, 1,5 bilhão de hectares, mas poderiam ser aproveitados pelo menos mais 2 bi¬lhões de hectares de imediato.
A concentração da riqueza fica ainda mais clara na comparação entre os dois pólos de riqueza e pobreza: os 20% dos habitantes dos países de maior renda são responsáveis por 86% do total dos gastos em consumo privado, enquanto os 20% mais pobres contam com a mínima cifra de 1,3%, isto é, 66 vezes mais para os de maior poder aquisitivo. (Sader, 2000, pp 77-78).


Nós, na América Latina, somos os pobres. Mas também somos ricos. Na perspectiva do multiculturalismo multitemoiral de Canclini não somos piores, nem melhores. Este hibridismo, esta mistura de situações dípares nos subjetiva de uma maneira singular. A América Latina é um caldeirão de misturas.



Gente de mano caliente
por eso de la amistad,
con un rezo pa’ rezarlo,
con un llanto pa’ llorar


A população de nossa América canta, dança, ritualiza seu cotidiano, embala seus filhos com canções de ninar – muitas delas surpreendentes como as mães adolescentes do Rio de Janeiro que cantam para seus bebês os funks proíbos pela polícia que exaltam a figura dos traficantes, muitos deles pais de seus filhos. Cacofonia de vozes.


Como musicoterapeutas é importante compreendermos a proposta de Canclini para os que se interessam na temática dos estudos culturais: devemos aprender a nos deslocar entre as interseções, transitar nas zonas onde as narrativas, incluindo as musicais, se opõem e se cruzam. Precisamos cartografar cenários de tensão e conflito, “construir una racionalidad que pueda entender las razones de cada uno y la estructura de los conflictos y las negociaciones”. Como musicoterapeutas, precisamos construir esta racionalidade onde podemos entender as razões de cada um, buscar os sentidos e as enunciações produzidas. Conviver com as diferenças, com as diversas sonoridades. Abrirmo-nos a uma hetorgeneidade que inclui a estranheza estabeleda tanto ao ouvir uma música erudita – clássica ou contemporânea, quanto ao acopanhar a improvisação delirante de um portador de sofrimento psíquico, tanto a percepção da sutileza das vozes anasaldas das manifestações populares, quanto uma execução rítimica tateante de qualquer um de nós. Reconhecer as diferenças, conviver com elas, e não somente tolera-las. Este o difícil desafio da construção social contemporânea. A musicoterpaia incluída nele.





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