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Publicado em 23 de fevereiro de 2008

MUSICOTERAPIA, CULTURA E IDENTIFICAÇÕES: POR UM CONHECIMENTO POLÍTICO: “YO TENGO TANTOS HERMANOS QUE NO LOS PUEDO CONTAR

Marly Chagas        
Palestra de abertura do III Congresso Latinoamericano
de Musicoterapia em Santiago do Chile, julho de 2007



RESUMO


A palestra explora algumas relações entre relações entre cultura e identidade na América Latina, tendo como vetor principal de problematização a potência da arte e da musicoterapia, enquanto uma clínica que se faz com arte, utilizando as concepções filosóficas de subjetividade como configuração de agenciamentos coletivos proposta por Deleuze e Guattari, culturas híbridas de Canclini e redes sóciotécnicas de Latour. Argumentamos que a arte, em particular a música, ao facilitar a expressão de sensibilidade e criatividade, propicia modos de subjetivação singulares. A Musicoterapia ao conjugar Arte com a potência imanente das linhas de fuga propostas por micropolíticas locais ocupa um lugar privilegiado no cenário contemporâneo. A palestra é desenvolvida com o auxílio da canção ”Los Hermanos” de Atahualpa Yupanqui.



Em primerio lugar, quero agradecer ao convite a mim feito pela organização deste Congresso e expressar como me sinto grandemente honrada, tanto pessoal quanto coletivamente, já que sou uma brasileira neste foro privilgiado de discussões em musicoterapia.


Pensar relações entre cultura e identidade na América Latina, tendo como vetor principal de problematização a potência da arte e da musicoterapia - enquanto uma clínica que se faz com arte, nos coloca frente a inquietações teóricas, estabelicidas entre os vínculos que unem cultura e sociedade. Em uma perspectiva atual de intensificação de trocas econômicas, turísticas, migratórias, informacionais entre todos os lugares do mundo, o conhecimento recíproco entre nós tem aumentado consideravelmente, possibilitando a produção de uma nova cultura planetária. Nossos limites mercadológicos, lingüísticos, musicais, pessoais mudaram de lugar. Nossos sonhos abrangem territórios mais longínquos. Nesta realidade, esbarramos com um primeiro desafio conceitual: a identididade. Se a compreendemos como a qualidade do idêntico, a estrutura que se caracteriza pela existência atemporal, pela essência imutável, pensar em identidade torna-se insuficiente para nossas questões. O que vivenciamos, muitas vezes com espanto, é a modificação pessoal, estabelecida em muitas relações, nossas características tornam-se ampliadas, e produzidas, em muitos coletivos. A subjetiviade, produzida outrora apenas na família, na escola, na religião, se amplia em experiências midiáticas, internauticas, ourkúticas, virtuais, cibernéticas, em sonoridades que envolvem intensamente a tecnologia.


Boaventura Santos acredita que a modernidade ocidental já não possui respostas aos grandes problemas da humanidade que o seu desenvolvimento gerou e indica dois eixos de compreensões para sairmos deste empasse: o multiculturalismo - a possibilidade de trabalharmos com lógicas civilizatórias plurais e a multitemporalidade - a possibilidade de concebermos uma perspectiva histórica não linear, que considere igualmente diferentes modos de vida social, nenhum deles mais “civilizado” ou atrasado do que o outro.


Experimentando esta estratégia de pensar, nesse Congresso vivencimaos um maravilhoso multiculturalsimo multitemporal. Estamos hoje, julho de 2007, no Chile, partilhando uma instigante sociedade. Somos musicoterapeutas. Somos chilenos, brasileiros, uruguaios, argentinos, colombianos, venezuelanos, mexicanos, mas também espanhóis e noruegueses. Somos todos os mundos, aqui.


Yo tengo tantos hermanos,
que no los puedo contar,
en el valle, la montaña,
en la pampa y en el mar.


Estamos construindo um saber novo sobre musicoterapia, sobre arte, sobre os seres humanos. Nestor Canclini , o sociólogo mexicano, alerta que, para construirmos um saber válido interculturalmente, precisamos redefinir o objeto dos estudos culturaes, substituindo a concepção de identidade para as de heterogeneidade e hibridação multicultural. Para isso, este autor ressalta a necessidade de entender as maneiras como as comunidades se imaginan e como constróem historias sobre a sua origem e sobre o seu desenvolvimento.


Neste Congresso, quem estamos conhecendo somos nós mesmos, musicoterapeutas, o conhecimento que estamos construindo é este saber latinoamericano sobre a musicoterapia. Um saber que é, ao mesmo tempo, latinoameicano e mundial, que é de cada um de nossos países e mundial, se é de cada um de nós, e de nossos paises, e da América latina e mundial. Neste nosso planeta interconectado, as heterogeneidades identitárias são étnicas, ou nacionais ou de gênero ou de nosso ofício que se reinventa.


A musicoterapia se amplia em ocasiões como essa, em que encontramos colegas de outros países. Hoje é o primeiro dia de nosso encontro, a primeira hora... Estaremos mudados no fim do Congreso Teremos executado as observações de Canclini: para nos conhecermos, precisamos entender as maneiras como nos imaginamos e como construímos nossas historias sobre a nossa origem e sobre o nosso desenvolvimento. Com serão os chilenos e a sua história com a musicoterapia? E os colombianos? Como pensam e trabalham? A Espanha? Além mar... Eu nunca fui a Europa. Faço a fantasia que se for à Espanha, à Itália, ou a Portugal me sentirei em uma tela mágica de passado e futuro simultâneos. A Noruega de Even Ruud, inimaginável viver muitos dias no frio. Podemos compartilhar nossas canções. Trouxemos nossas histórias. Quem somos? Quem não está aqui? Porque não veio o Peru? E Cuba? No Equador, conheceremos alguém? Paraguai? Guatemala?






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