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Publicado em 7 de dezembro de 2007
JOVENS QUE CANTAM, CONTAM E RECONTAM OS “SENTIDOS” DA MÚSICA EM SUAS HISTÓRIAS DE VIDA Página 3
Patrícia Wazlawick Kátia Maheirie
A música“É, a minha atividade. E sabe, muita gente olha assim: vai ser músico... tipo, ‘ele vai arriscar tudo’, só que (...) a noiva do meu irmão se formou em Odontologia e não consegue emprego, imagina, Odontologia que é um emprego altamente rentável, né? E tu vês até no Rio de Janeiro, engenheiro civil tentando vaga de lixeiro, gari, né... Daí eu pensei: ‘poxa, vou arriscar né...” (Beto).
“Pra mim foi uma coisa muito boa quando eu comecei a dar aula, as minhas irmãs tiveram uma dificuldadezinha pra ter emprego, pra arrumar um emprego e eu não, eu fui entrando em passos, acho que a música me ajudou em tudo (...), ajudou totalmente na carreira profissional, pessoal, acho que está presente em tudo. Não conseguiria, de forma alguma estar fora disso” (Jaque).
Podemos perceber que estes jovens construíram histórias de relação com a música, onde passo a passo ela foi se construindo como suas atividades principais. Apropriaram-se do fazer musical transformando-o em algo onde puderam objetivar e historicizar suas implicações com a música, um fazer técnico e afetivo, pleno de seus sentidos. Assim como diz Maheirie (2001, 2003), podemos encontrar a música aí como uma “linguagem reflexivo-afetiva”. O novo sentido que a música assume nas narrativas cantadas e contadas é o de integrar suas atividades, seus fazeres, que se qualificam como atividades e fazeres musicais. Fazeres técnicos, um trabalho, que também é prazeroso, que exige estudo, esforço, dedicação, conhecimento, onde podem se realizar, sentir satisfação e seguirem em seus processos de constituição como sujeitos.
Neste sentido, Maheirie (2001), também em pesquisa junto a músicos e suas bandas, na cidade de Florianópolis, esclarece que
Quando se vive o projeto na práxis cotidiana, não há espaço para o conformismo, a apatia e o tédio. Assim, o músico sintetiza prazer e trabalho, unificando-os num único movimento, no desejo de criar um tempo próprio, não alienado, autodeterminado (Maheirie, 2001, p. 84).
Existe uma processualidade histórica onde estes sujeitos, sempre em relação com a alteridade, e com a música também como alteridade que se põe em relação a eles, com a qual dialogam, constroem, desconstróem, criam e (re)criam, vão constituindo-se sujeitos mediados pelo fazer musical. E nesta trama de sentidos e sonoridades, nestas histórias de relação com a música é conferida à música a qualidade de ser subjetividades objetivadas (Maheirie, 2001).
Para finalizar, como sempre proponho “codas”, gostaria de pontuar a respeito das considerações finais de minha pesquisa de mestrado, e algo a mais, idéias que remetem para pensarmos as questões das significações musicais em nossa cultura.
Percebemos que os sentimentos e as reações despertadas pela música não são iguais para todas as pessoas nas diversas épocas e lugares, mas são produtos do experienciar humano. É difícil haver uma generalização que explique a comunicação e a significação musical, já que este processo é dialético e acontece inserido na dimensão cultural, por meio da ação dos sujeitos
Esta idéia também pode ser verificada em Maheirie (2003). De acordo com a autora, “as músicas, na medida em que provocam no fisiológico determinadas reações, podem, a partir daí, nos remeter a estados emocionais intensos, em que só as ações poderão lhes dar uma significação. Esta, não sendo estabelecida a priori na música, também não o é nas emoções, posto que o que nos emociona não emocionará necessariamente os outros” (p. 150).>
Nesta perspectiva, é preciso atentar para os aspectos que permitem compreender que a música tem significado para cada pessoa na medida em que se vincula à experiência vivida, passada e/ou presente, também em relação a um devir, e quando proporciona articular o vivido junto aos sentimentos e emoções à própria música.
Em termos de construção social do significado musical, Martin aponta que “os significados da música não são nem inerentes nem reconhecidos intuitivamente, mas emergem e tornam-se estabelecidos (ou transformados, ou esquecidos) como uma conseqüência das atividades de grupos de pessoas e contextos culturais particulares” (Martin, 1995, p. 57).
Os significados da música são então, sociais e singulares, construídos, criados e (re)criados nas relações e ações condizentes com o que é vivido e experienciado.
Nesta pesquisa, ao fazer parte das histórias, a música contribuiu para integrar os enredos, e os jovens construindo narrativas para sua história de relação com a música, viram-na também contar sobre eles e suas relações, a partir dos elementos base dessas histórias que foram os significados e sentidos emergidos e construídos da vivência dos acontecimentos objetivos. Junto desta compreensão lembramos então, que a música é sempre um fazer com os outros. É relação. E destas relações dialógicas os sujeitos constroem os sentidos da música e do fazer musical em suas histórias de relação com a música.
Trabalho apresentado na XXXVII Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) – de 25 a 28 de outubro de 2007, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Departamento de Psicologia, cidade de Florianópolis, SC.
Trabalho integrante (e apresentado) na “Sessão Coordenada: Infância, Juventude e Objetivações Artísticas” – data: 28 de outubro de 2007.
Referências:
Wazlawick, Patrícia. Quando a música entra em ressonância com as emoções: significados e sentidos na narrativa de jovens estudantes de Musicoterapia. Dissertação de Mestrado, Pós-Graduação em Psicologia-Mestrado, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2004.
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