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Publicado em 7 de dezembro de 2007
JOVENS QUE CANTAM, CONTAM E RECONTAM OS “SENTIDOS” DA MÚSICA EM SUAS HISTÓRIAS DE VIDA
Patrícia Wazlawick Kátia Maheirie
Este trabalho faz algumas considerações relativas à minha pesquisa de mestrado em Psicologia, linha de pesquisa “Processos Psicossocias”, da Universidade Federal do Paraná, que se fundamentou na perspectiva Histórico-Cultural da Psicologia em interface com a Musicoterapia, e é intitulada “Quando a música entra em ressonância com as emoções: significados e sentidos na narrativa de jovens estudantes de Musicoterapia”. O objetivo principal desta pesquisa foi estudar os significados e sentidos expressos nas narrativas que os jovens constroem sobre sua história de relação com a música.
Na realização desta pesquisa entendemos que a música é criada pela utilização cultural e pessoal dos sons. A música age sobre a cultura que lhe dá forma e de onde ela deriva, ao mesmo tempo em que se insere na estrutura dinâmica onde ela própria se formou, sendo sempre um fazer humano em relação. Está inserida nas várias atividades sociais, donde decorrem múltiplos significados ao fazer musical. A cultura dá os referenciais, bem como os instrumentos materiais e simbólicos que cada sujeito se apropria para criar, tecer e orientar suas construções, neste caso, as atividades criadoras e musicais. Quando se vivencia a música se relaciona ao mesmo tempo com a matéria musical em si, isto é, notas musicais, alturas, durações, intensidades, timbres, estrutura e expressão, e suas relações, e com toda uma rede de sentidos coletivos e singulares construídos nos contextos sócio-histórico-culturais de sujeitos.
A atividade musical, enquanto integrante de uma cultura, criada e recriada pelo fazer reflexivo-afetivo do homem, é vivida no contexto social, histórico, localizado no tempo e no espaço, na dimensão coletiva, onde pode receber significações que são partilhadas socialmente e sentidos singulares que são tecidos a partir da dimensão afetivo-volitiva e dos significados compartilhados. É em meio a esta trama que fomos encontrar três jovens, Beto, Jaque e Lia, estudantes do primeiro ano da graduação em Musicoterapia, no ano de 2004, que com suas vozes e com os sons de seus instrumentos musicais cantaram, tocaram, contaram e recontaram-nos os sentidos da música e da atividade musical em suas histórias de vida.
A metodologia empregada nesta pesquisa, a saber, Entrevista Narrativa (Schütze, 1977) focada na Autobiografia Musical (Ruud, 1998), permitiu nos aproximarmos de narrativas verbais e musicais tecidas pelos participantes acerca das experiências musicais vividas.
A “Autobiografia Musical”, metodologia desenvolvida pelo musicoterapeuta norueguês Dr. Even Ruud (1997, 1998), é um caminho que permite a compreensão de narrativas de histórias de vida vinculadas a narrativas musicais. Ou seja, as narrativas de vida mediadas pelas canções e músicas que os sujeitos trazem tornam visíveis histórias de relação com a música, e os movimentos que constituem sujeitos implicados com a atividade musical. Os sentidos (VYGOTSKI, 1992) construídos nas histórias de relação com a música apontam para histórias de vida de sujeitos, pois só ali podem acontecer e dali podem emergir.
Dessa forma, a Autobiografia Musical trabalha com a linguagem musical ao mobilizar a percepção, a imaginação, a reflexão e a dimensão afetiva, para comunicar e expressar sentidos que integram as vivências e as inter-relações do percurso de vida. Aqui a linguagem musical é entendida tal como definida em Cunha e cols. (2006, p. 89), “a linguagem musical corresponde (...) aos elementos que a pessoa utiliza para expressar sua musicalidade: canções e seus textos, melodias, ritmos, timbres, intensidades, alturas, ruídos, poesias e outras expressões sonoras que possibilitam a comunicação de estados intencionais”. Ao entrelaçar narrativas musicais e narrativas verbais, a Autobiografia Musical contempla a construção de um repertório sonoro-musical que se torna revelador dos sentidos e da trama afetivo-volitiva vivenciada por um sujeito.
As vivências em situações concretas permeadas pela dimensão afetivo-volitiva, contadas e cantadas, narradas pelos jovens, deram margem para a construção dos sentidos da música nestas tramas históricas. São sentidos que estão envoltos às emoções, sentimentos, desejos, vontades, interesses, motivações, a um mundo ético-estético-cognitivo (Bakhtin, 2003) destes sujeitos sempre em relações com a alteridade. São sentidos que demonstram a utilização viva da música e a movimentação de sujeitos implicados com a atividade musical, que constituem esta atividade enquanto ela também é constituinte deles.
E neste movimento dialético destacamos alguns leitmotivs destes três jovens que nos sinalizam a presença da música e as relações com o fazer musical ao longo das histórias de relação com a música:
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