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Publicado em 9 de novembro de 2006

REFLEXÕES SOBRE: POSSIBILIDADES E ENTRAVES PARA A FORMAÇÃO STRICTO SENSU DO MUSICOTERAPEUTA
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Patrícia Wazlawick        


E foi considerando este "sentir" que escolhi o mestrado em Psicologia. Possibilidade, sim, várias possibilidades. Possibilidade é aquilo que pode ser. É a qualidade de possível. Do latim possibile, que pode ser, acontecer ou praticar-se. Existe enquanto potência, e pode ser atuado. Mais uma vez, não é uma necessidade, é uma escolha. Escolho, não deixando de esquecer do contexto e das determinações, mas escolho em base aos meus sentidos, aquilo que quero atuar, aquilo que quero fazer acontecer e praticar. E neste curso de pós-graduação (mestrado), ao estar estudando outra área de conhecimento, a Psicologia, mais especificamente Psicologia da Infância e da Adolescência, linha de pesquisa "Processos Psicossociais", ênfase na linha de pensamento da Psicologia Histórico-Cultural, tive de estudar "pra caramba", apropriar-me ou tentar apropriar-me, pelo menos me aproximar de todo um outro "mundo" de conhecimentos, como dizia minha orientadora1. E aí o serviço veio em dobro. Estudar, conhecer e me apropriar dos conceitos da Psicologia Histórico-Cultural e fazer uma interface, um diálogo, uma conversa, um "dueto" com a música e a Musicoterapia.

Mais uma vez a dimensão do possível. E como não poderia deixar de ser, a dimensão dos entraves. Entrave vem do verbo entravar, que significa: "pôr entraves a; embaraçar, obstruir, atravancar, travar, tornar impraticável; impedir" (Ferreira, 1977). Obstáculo, empecilho. Talvez preferiria falar em termos de possibilidades e não possibilidades, ao invés de entrave. Mas sem esquecer, e isto vocês devem estar cansados já de me ouvir falar neste texto, que significa remeter-se à questão das escolhas. Ou então de não possibilidades, ou de entraves mesmo, já que temos de falar deles.

Preciso dizer que alguns entraves são mais entraves que outros, e outros são menos entraves que alguns. Alguns entraves têm uma objetivação condizente com alguns reais, outros são entraves que nós colocamos, ou escolhemos colocar, e aí a discussão toma outro rumo. No entanto, como preciso concluir esta trama de idéias que comecei e teço, posso objetivar que um obstáculo que encontrei foi a questão epistemológica, não exatamente um obstáculo, mas um embaraço que tive de resolver, já que isto ainda é um pouco não muito estruturado na Musicoterapia de modo amplo. Tive de articular um conhecimento de uma ciência um tanto quanto recente, que é a Musicoterapia, com uma ciência já com alguns anos de estrada, mas nem por isso sem seus questionamentos, que é a Psicologia, escolhendo para este dueto uma possibilidade epistemológica, e percebendo que deve haver coerência neste colocar para dialogar e caminharem juntas as ciências. Que isto deu serviço, ah deu. E o que acompanhou este percurso foi também mostrar que a Musicoterapia não é tão frágil assim em termos de conhecimento científico. Precisa ainda de muitos pensares, que talvez já até estejam sendo objetivados, pensados, vividos e experimentados nas práticas de cada um dos musicoterapeutas, e que começam a aparecer em termos de pesquisas, registros, escritos, artigos, dissertações, teses, enfim, produções de conhecimento que desafiam muitos "entraves" por aí.

Outra questão com a qual me deparei e tive de trabalhar, foi a tão falada interdisciplinariedade entre as disciplinas do conhecimento. Tão bonito discurso, preciso, mas que na hora de fazer desgasta um pouco, porque mediando este discurso estão pessoas, profissionais, de áreas diferentes, alunos de programas de pós-graduação, que objetivam estes conhecimentos e que fazem-no ou não o fazem. Mais uma vez pontuo o olhar àquele que é o pesquisador, aquele que faz a pesquisa, e que muitas vezes se coloca na posição de grande-sabedor-dono-do-conhecimento, e mais, um conhecimento que é seu por merecimento. Ora pois, os conhecimentos são de todos, qualquer um pode apropriar-se deles, até mesmo aqueles meus figurantes da cena lá do litoral que vos contei no início desta fala, ainda lembram deles? Quando nos apropriamos dos saberes, sejam eles quais forem, passamos a agir e num contínuo processo de objetivação e subjetivação podemos produzir outros conhecimentos e produzir a nós mesmos. Produção de conhecimento mais que reprodução. Isto tudo para dizer que a interdisciplinariedade ainda é relativa, que de acordo com Michel Bruschi (2003) ainda vivemos um pouco nos labirintos formados por antidisciplinas e contradisciplinas. Quando o que se busca, e por outro lado já está se tornando objetiva a possibilidade do conhecimento contemporâneo, que intenta não ser mais disciplinar, mas temático. Diz este autor que "...os temas seriam como galerias, por onde transitam os saberes..." (ibid., p. 80). Mas vai colocar isto em algumas "cabeças-pensantes"... é... alguns entraves.

Então, uma possibilidade que encontrei foi a "bricolage". Isto é, permitir-me e desafiar-me a estranhar a prática e o conhecimento, a desconstruir o que está posto, a realidade dada, para re-configurar de outro modo, um outro modo possível, mundos possíveis, como nos diz Jerome Brunner (1998). Decompor e novamente re-configurar de um modo criador, para poder produzir novas possibilidades de existência e de conhecimentos. Aqui estou tanto no campo das possibilidades quanto dos entraves. É um contínuo fazer. Conforme diz Angel Pino (2005), "ainda temos muitos buracos negros, mesmo que sejamos psicólogos e tenhamos pensado algumas questões a tempo". Ele diz isto em relação ao fazer e ao pensar em Psicologia. Esta fala demonstra outra postura, uma postura de humildade frente ao conhecimento, à pesquisa e ao processo de construir conhecimento.

Voltando a bricolage, ela é uma montagem e uma re-montagem de elementos que já existem, e que, justamente por isto, sendo de outro modo articulados, passam a ser novos, pois a eles se dá um novo sentido. E foi isto que busquei em minha pesquisa, estudos e dissertação de mestrado. Poderia não ter sido, mais uma vez foi uma escolha. Uma escolha que se deu na dimensão compreendida de que o sujeito constrói a realidade, os contextos, enquanto se constrói, se constitui neste fazer, nesta ação. E isto se dá com a pesquisa, com a produção de conhecimento, com as construções de nossas práticas também na Musicoterapia. É um processo dialético, de movimento, de contínua contradição. É uma objetivação afirmada que passa a ser negada, e nesta dinâmica surge a negação desta negação como uma possibilidade de síntese, que pode novamente ser afirmada e negada, dando prosseguimento ao processo. Uma síntese aberta e inacabada (Maheirie, 2002). Contradição entre possibilidades e entraves, unidade de opostos, de contrários, que caminham juntos, que se afirmam, se negam, se re-criam, num movimento que articula agir, pensar e sentir, escolhas e necessidades ou não necessidades. Um constante devir que traz toda a história consigo articulando as vivências presentes.






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