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Publicado em 9 de novembro de 2006

REFLEXÕES SOBRE: POSSIBILIDADES E ENTRAVES PARA A FORMAÇÃO STRICTO SENSU DO MUSICOTERAPEUTA

Patrícia Wazlawick        


É realmente muito interessante o modo como escolhemos certas áreas, certos fazeres. Estou agora falando para vocês, alunos de Musicoterapia, profissionais, professores. Cada um de vocês têm junto, neste momento, suas ocupações e preocupações, suas histórias presentes, constituídas de um passado e projetadas a um devir, tarefas a serem cumpridas, suas relações e implicações... Muitas coisas vocês escutarão por estes dias, muitas coisas os mobilizarão, algumas os tocarão de modo especial... se assim for será porque estabelecerão com vocês um sentido diferenciado, talvez sejam tocados de modo afetivo, um afetivo que compreende sentimento e emoção, não excluída a reflexão. Um sentir no sentido que nos explica a filósofa húngara neomarxista Agnes Heller. Para Heller "sentir significa estar implicado em algo" (Heller, 1980, p. 15-16).

"Sinto que estou implicado em algo. Esse 'algo' pode ser qualquer coisa: outro ser humano, um conceito, eu mesmo, um processo, um problema, uma situação, outro sentimento... outra implicação" (ibid.). "Estamos implicados na preservação e expansão do eu, na continuidade do eu, no conhecimento do homem, em encontrar nosso caminho no mundo, em compor, compreender, ordenar os fatos da vida, em atribuir sentido as ações. Estamos implicados em nossos valores, nossos costumes, nossas objetivações. Estamos implicados no mundo e em nossa pessoa..." (Heller, 1980, p. 68). Este algo é "algo presente" para mim. Implico-me diretamente com algo que se relaciona comigo, com minhas idéias, objetivos, circunstâncias de minha vida (Heller, 1980). Estou implicado quando relaciono as informações comigo, e elas despertam ou eu as dou uma significação.

Antes de ir adiante faço um parêntese, pois algo prendeu minha atenção há uns dias atrás. Eis que ia eu pelas estradas do litoral do Paraná, quando passando por uma estrada que cortava uma cidadezinha quase de beira de mar, vi algumas pessoas caminhando, conversando, andando tranqüilas depois do almoço, outras sentadas em um banco de madeira, num dia bonito, ensolarado... Uma cena bem diferente da realidade cotidiana que estamos acostumados a viver no agito das cidades contemporâneas - ou "pós-modernas", para usar este termo que já é empregado por alguns autores da atualidade. Em segundos me veio a questão: "Eles ali, nem sequer se preocupando com a existência e os questionamentos de Sartre e Vygotski"... Digo isto, pois para mim a implicação com Sartre e Vygotski estava superdimensionada por estes períodos - "Talvez eles nem sequer saibam da existência de Sartre e Vygotski...". Talvez as pessoas que figuraram a cena por mim vista e recortada daquele contexto tenham outras implicações, nem por isso menos ou mais importantes que as minhas. Implicações reais e significativas para elas. Talvez passem sua existência inteira sem virem a saber de Sartre e Vygotski, ou até escutem estes nomes, que para eles soarão como desconhecidos, sons articulados no vazio. Outros nomes podem ser mais significativos a elas. Mas, nem por isso, mais ou menos importantes.

O que quero dizer, já que tenho de falar, nesta mesa redonda, sobre "as possibilidades e entraves para a formação Stricto sensu do musicoterapeuta" - e vejam, não estou fugindo do tema, estou apenas fazendo um "prelúdio" - quero dizer que não é necessário, "para a vida nada é necessário, tudo se remete a uma escolha". Eu poderia ter escolhido não sair do Rio Grande do Sul, não vir para cá (Curitiba) fazer a graduação em Musicoterapia, fazer outra coisa por lá mesmo. Mas escolhi vir. Eu poderia não ter terminado o curso, ter parado no começo, na metade, já que a saudade era tamanha para quem sai de casa a primeira vez para se virar pelo mundo a fora com apenas 17 anos. Mas escolhi me formar em Musicoterapia. Eu poderia ter retornado à minha cidade lá no sul, trabalhar como musicoterapeuta, afinal seria a primeira profissional desta área por aquelas bandas. Mas escolhi ficar em Curitiba. Comecei a trabalhar. Eu poderia ter desistido, ter feito outro curso, trabalhar com outra coisa. Eu poderia ter feito a especialização em Musicoterapia no Conservatório Brasileiro de Música no Rio de Janeiro, como tanto idealizava e planejava para os meses que se seguiriam a minha formatura. Mas escolhi não fazer. Por nenhuma questão específica, mas porque "senti" que deveria "esperar" um pouco, ir construindo a história de outra forma. Opa, espera aí: se ouvi bem acabei de falar que "senti" que deveria "esperar" um pouco. E gostaria de sublinhar este sentir.

Acontece que, fazendo ouvir novamente as palavras de Agnes Heller (1980), esta nos diz que é preciso que saibamos articular o agir, o pensar e o sentir. E talvez aquilo que sentimos tenha algo a nos indicar a respeito das decisões que precisamos tomar em nossos momentos históricos.

Para Heller (1980) a personalidade unificada é rica em sentimentos. O homem deve sentir a si, sua ação no mundo, centrar-se em sua unidade enquanto age, cumpre e avalia suas tarefas no mundo social. Orientar-se pelas informações que o próprio sentimento porta, que as emoções permitem compreender. Ter a inteligência de ler dentro das ações, dentro das relações mediadas pelo sentir. "O sentimento não é igual à informação, sentimento é também informação (...) o sentimento sempre informa sobre a relação do Eu com o objeto..." (1980, p. 69). O sentimento diz algo sobre a significação-para-nós da realidade.






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