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Publicado em 1 de novembro de 2006
MOVIMENTOS NO PROCESSO DE CONSTITUIR-SE MUSICOTERAPEUTA: REVISITANDO UM TEXTO ESCRITO NA GRADUAÇÃO E OUTRO APÓS SE PASSAREM DOIS ANOS DA FORMATURA
Patrícia Wazlawick
Começo este texto citando algumas palavras do poeta Paul Valéry: "Um poema nunca é acabado, apenas abandonado". Após esta frase, imediatamente lembro de algumas palavras da musicoterapeuta brasileira Lia Rejane Mendes Barcellos em uma palestra, por ocasião do II Encontro Latino Americano de Musicoterapia, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, em 1998. Na palestra ela comentava, entre outros pontos, a respeito do musicoterapeuta arquivar todos os seus relatórios e escritos, desde a época de sua graduação, de seus estágios, e posteriormente, de seu trabalho profissional, pois nestes materiais podem estar escritos, textos, artigos, pesquisas em potencial, que ele poderá revisitar futuramente e organizar estudos para publicação. E, além destes dois leitmotivs acima apontados, trago mais um, uma citação de Gagno e Weber (2002), presente no editorial da Revista Interação em Psicologia (volume 6, nº 2):
Um dos motivos que costumam inibir um autor a enviar seu manuscrito para publicação é a dificuldade em considerá-lo terminado. Há sempre mais um reparo, mais uma modificação "imprescindível" a ser feita... Cientes da severa autocrítica que costuma abater novos (e até mesmo experientes) autores, resgatamos este bonito verso de Paul Valéry que nos alerta para o fato de que um poema, assim como um estudo ou um artigo, nunca estará perfeito, terminado; apenas será "abandonado" em determinada altura e, possivelmente, retomado mais adiante. A propósito, é este mesmo o percurso da ciência: avançar na produção do conhecimento, a partir de verdades sempre provisórias e parciais, e nunca definitivas e acabadas (Gagno & Weber, 2002).
Por estes e alguns outros motivos, e lembrando o movimento apontado então, de "escrever, abandonar e resgatar", trago agora dois textos, o primeiro escrito por mim e algumas colegas - ainda estudantes da graduação em Musicoterapia, e o segundo escrito por mim após se passarem dois anos de minha formatura em Musicoterapia. A partir destes escritos, posteriormente, pretendo discutir alguns pontos, ou melhor, evidenciar algumas "passagens", ou "movimentos", por assim dizer, em nosso processo de constituir-se "musicoterapeuta".
O primeiro texto que agora revisito foi escrito há nove anos, lá por meados de 1997, quando estava no primeiro ano do curso de graduação em Musicoterapia. Parece que o tempo passou muito rápido desde aquelas primeiras aulas sobre o que vinha a ser a Musicoterapia. Era tudo novidade: o curso, a Musicoterapia, a faculdade, os colegas, os professores, a nova morada, a cidade, enfim, todo o novo momento que se inaugurava em minha vida de garota de 17 para 18 anos. Era cedo para escolher um curso de formação profissional, era cedo para escolher uma profissão. Hoje vejo assim. Mas naquele momento tinha certeza, tantas certezas... de que havia feito a escolha certa.
Este texto foi um trabalho requisitado na disciplina de Musicoterapia I, onde deveríamos entrevistar profissionais musicoterapeutas e escrever sobre quem é esse profissional, sobre como se dá a formação de um musicoterapeuta, sobre os aspectos relevantes para esta formação. O trabalho foi realizado em grupo, estávamos em cinco: Fernanda, Kenia, Patrícia, Cleide e eu, também Patrícia. Hoje não tenho mais contato com estas colegas, quiçá fazem de suas vidas? Serão elas musicoterapeutas? Mudaram de profissão? Fizeram outros cursos? Trabalham em um ou vários lugares? Estão bem na escolha profissional que fizeram naquela época? Estão, com seus trabalhos, dando continuidade e crescimento à carreira e profissão de musicoterapeuta? Estão dando aulas em alguma instituição? O que construíram e constroem?
Perguntas que dizem respeito a aspectos pessoais de vida que se mesclam a aspectos profissionais, pois somos uma e a mesma coisa, pessoa e atividade, pessoa e profissional, não existe uma vida pessoal privada e uma vida profissional separada daquela. Somos um projeto de ser, um projeto de ser alguém, aquele alguém que desejamos ser, que tem a ver com a nossa história, mas que também tem a ver com o devir, com contingências do devir, com estratégias de futuro, com as escolhas e decisões que tomamos. E somos responsáveis por isto. Somos pessoa, sujeito, musicistas e musicoterapeutas. Somos uno. Ou precisamos ser.
Para mim muita coisa mudou... Coisas que eu nem imaginava que iriam acontecer, aconteceram e estão acontecendo. Coisas que eu tinha certeza que iriam acontecer nem de longe assim o foram. É um processo, o processo de constituir-se sujeito, que envolve o processo de constituir-se musicoterapeuta.
Dias desses, acho que já a algum tempinho, recebi um e-mail que continha uma bela e sábia frase: "quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas...". E é isto: tudo está em movimento, constantemente. É Vygotski quem diz que "só em movimento as coisas são o que são". Ah, Vygotski foi outro a quem fui apresentada enquanto estava no mestrado, e olha que nem pensava ou sonhava em fazer mestrado tão cedo. Aí cumpri o mestrado e as ações me levaram, depois de um ano e meio, ao doutorado. E o Vygotski veio junto. Hoje é presença de honra. Interlocutor de honra, assim como tantos outros que conheci. E eles também estão me conhecendo, e conhecendo a Musicoterapia. A Musicoterapia escolhi fazer enquanto estava no primeiro ano do segundo grau. Depois durante o segundo e metade do terceiro ano eu esqueci dela, pensava em outros cursos. Mas numa aula de filosofia, assistíamos a alguns vídeos sobre várias profissões e lá apareceu uma musicoterapeuta carioca
falando e falando sobre esta profissão, e me convenceu. Só que não foi só ela que me convenceu. Eu já estava enlaçada pela música. Não sei como. Acho que desde os onze anos de idade quando comecei a aprender a tocar teclado. Mas também não foi só o teclado. Foi o violão e o piano, foram aquelas professoras, mediadoras do conhecimento musical, foram as músicas que eu sempre ouvia, dançava, cantava, inventava, brincava de roda, tocava instrumentos musicais construídos das mais diversas formas desde a pré-escola. Ouvia muito rádio quando estava em casa, antes ainda de ir para a escolinha. Meu pai é e foi músico, toca bateria, teve banda, chamava "Mercedes Benz", tem umas fotos muito engraçadas lá da década de 70. Contam que desde criança ele juntava as panelas e as tampas das panelas da minha avó, sua mãe, e ficava batucando em casa. Minha mãe diz que enquanto meu pai toca bateria, eu teclado e meu irmão bateria também, ela só toca o sino da igreja. Sempre a música esteve por perto, sendo ora figura, ora
fundo. Sempre vivi muita coisa com a música e assim continuo. Tudo isto faz parte de uma relação "implicada" - implicação no sentido que define Agnes Heller (1980) - com a música. Faz parte de uma história de relação com a música. Quero viver bastante ainda para saber onde esta história vai dar.
Penso que me desviei um pouco dos textos pelos quais comecei a escrever este texto. Agora vou retornar a revisita. Mas, não pensem que isto tudo não tem nada a ver. Tem sim, e muito. Tudo. É por causa de todas estas sínteses, afirmações, negações e superações que me titulei musicoterapeuta. Pelo menos é o que consta no meu diploma de graduação. Mas, na minha singularidade, eu sou e estou me fazendo musicoterapeuta.
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