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Publicado em 20 de outubro de 2006
A CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO CONSIDERAÇÕES ACERCA DA CLÍNICA EM MUSICOTERAPIA Página 3
Marly Chagas
Fazendo parte desta maneira "médica" de ver o outro, algumas vezes o chamamos de paciente, indicando que cuidamos de alguém que está doente. Fazemos anamnese, ficha musicoterápica... Esta perspectiva de nossa atuação profissional é confirmada, especificada, em parte contestada, por Barcellos e Santos (1996, p.10) quando denunciam a existência de uma "ênfase na descrição e na história do paciente de forma desproporcional à descrição do processo musicoterápico no qual deveria incluir a análise da expressão sonoro-musical do paciente, isto é, a leitura musicoterápica."
Schapira (1996, p.48), em musicoterapia, elabora um conceito que denomina de "Modos de Comunicação Não-Verbal" e que se aproxima da proposta de Fiorini, em psicoterapia, sobre o "diagnóstico comunicacional". Partindo da hipótese de que "existem modos comunicacionais não-verbais específicos de cada comunidade social", Schapira postula que o musicoterapeuta deveria indagar-se, em primeiro lugar, acerca daqueles "modos gerais de comunicação não verbal (MCnoV) de seu próprio grupo social, e finalmente os MCnoV de cada paciente ou grupo de pacientes."
Considerando a questão da sistematização do conhecimento teórico da clínica musicoterápica, ainda temos muito o que avançar. Em que direção? Acredito que precisamos aprofundar investigações no sentido de elaborar esquemas de diagnóstico em musicoterapia, tendo por parâmetros as expressões rítmicas, melódicas, harmônicas e vocais do nosso cliente.
De qualquer modo, seja qual for o sistema referencial em que o musicoterapeuta se baseia para a formulação de sua prática clínica, ele precisa desenvolver um saber cada vez mais presentificado a respeito do seu próprio fazer. Refletindo sobre essa questão, Pellizzari ( p.38) afirma que "o musicoterapeuta só pode se dar conta de seu fazer profissional se tem certa consciência de seus atos."
É sempre bom lembrar, que o modelo médico é objeto de inúmeras e consistentes críticas. Foucault (1977), baseado na concepção de que este modelo é positivista e determinador do olhar médico, aponta o nascimento da clínica moderna como correspondente ao surgimento de um saber que, durante décadas, vem enquadrando o homem numa perspectiva de visão estreita e limitadora.
O desenvolvimento dessa idéia crítica não faz parte do âmbito deste trabalho, embora considere sempre oportuno trazê-la às nossas reflexões, na medida em que, inclusive, podem nos inspirar na direção de nossa própria autocrítica. Afinal, que tipo de musicoterapeutas temos sido? Em que medida temos contribuído para solucionar os graves problemas advindos da poluição sonora? Temos acompanhado o desenvolvimento das discussões políticas acerca da saúde em nosso país? Temos incentivado atividades preventivas na área de saúde?
Vínculo também quer dizer relato, subordinação.
Estes significados me remetem a uma questão muito complicada de nossa tarefa profissional: o relato; é importante relatarmos nossas sessões. O registro do ocorrido serve de material para estudo e análise. É através da descrição das sessões e das supervisões recebidas, que nos tornamos conscientes dos caminhos percorridos. O estabelecimento de novos recursos musicoterápicos também advêm da análise de nosso trabalho.
A questão crucial é como relatar, como registrar uma sessão de musicoterapia? Acredito que todos nós já nos vimos paralisados pela angustiante pobreza do vocabulário ou pela imperdoável falta de memória, e inconformados com o contraste entre as impressões vivenciadas durante a sessão e a frieza do relato feito depois.
Esse contraste que experimentamos, demonstra que estamos lidando com dois níveis diferentes de nossa experiência. Schapira (1996), com uma precisão poética, chama este momento crítico de "o abordável, o inacessível", "o inefável, o polissêmico". A polissemia a que se refere é a do fenômeno musicoterápico em que "toda explicação é um mera descrição do mesmo, mas não é o fato em si."
Benenzon (1996, p. 82) coloca, a esse respeito, uma conclusão bombástica: "não se pode, nem se deve traduzir a linguagem analógica para a digital", a linguagem não-verbal para a linguagem dos signos convencionais. "Portanto é muito complicado poder traduzir ou transcrever uma sessão de musicoterapia. Isso conceitualiza a supervisão em musicoterapia. Só se pode supervisionar o relato de uma sessão pelo relato mesmo do musicoterapeuta."
Estamos diante de um "obstáculo epistemológico" segundo a conceituação de Pichon Rivière ( 1986 ). Para ele o ato de conhecer se dá num campo determinado. Neste campo está incluído um sujeito que deseja conhecer e um objeto a ser conhecido. O obstáculo epistemológico surge quando o objeto não se deixa conhecer. Para Pichon "sempre se conhece contra algo, contra esse objeto que se deve romper, desarmar e, em seguida, tornar a armar. Por essa razão não existe uma contradição entre análise e síntese, já que a síntese só se torna possível depois da ruptura da estrutura que se deseja conhecer."
O nosso "obstáculo epistemológico" consiste no choque entre o fato de precisarmos nos comunicar, trocar experiências, seguir avanços técnicos, metodológicos e conceituais formulados por uma linguagem científica, e o fato de exercermos uma prática não-verbal, expressiva, subjetiva, formulada por uma linguagem musical.
Em um sentido figurado, a palavra vínculo quer dizer uma ligação moral
Acredito que nós, musicoterapeutas, temos uma ligação moral, um vínculo que se constrói entre nós mesmos. Somos uma categoria que aparece com mais força a cada dia, e este Simpósio é uma mostra disto.
Nesse momento a ação de cada um de nós repercute no trabalho de todos.
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