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Publicado em 20 de outubro de 2006
A CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO CONSIDERAÇÕES ACERCA DA CLÍNICA EM MUSICOTERAPIA
Marly Chagas Palestra no IX Simpósio Brasileiro de Musicoterapia, 1997
Ao iniciar as minhas reflexões acerca do tema que me propus debater nesse simpósio - a construção do vínculo -, surpreendi-me. Consultando o Aurélio, recolhi vários significados para a palavra vínculo. Habituada a associar esta palavra, estritamente, à interação fundamental que ocorre entre dois seres, principalmente a que acontece entre a mãe e seu bebê, percebi, na consulta ao dicionário, a riqueza de significados dessa palavra. Construí, então, com esses significados, um guia para a minha reflexão, levantando a partir deles uma série de questões que considero como fatores vinculares múltiplos, implicados na construção de uma clínica musicoterápica.
Como primeiro significado para a palavra vínculo encontrei: "tudo que ata, liga ou aperta" (Ferreira, 1992).
Encontramos, atualmente, vários pensamentos teóricos que, baseados em outros saberes, vêm fundamentar a prática de inúmeros profissionais em nossa área. Em função dessas ligações, temos musicoterapeutas vinculados a diversas escolas e abordagens.
É importante enfatizar que nos ligarmos a um determinado pensamento teórico, implica escolher um sistema de crenças que inclui a concepção filosófica do homem, a visão acerca das possibilidades de transformação deste homem, as idéias a respeito da doença e da saúde, da vida e da morte e, no nosso caso, o posicionamento em relação à intervenção sonoro-musical como possibilidade de ação terapêutica.
Atualmente, todos nós temos buscado maior clareza no que se refere a formulações teóricas da musicoterapia. Esta busca nos coloca em contato com duas abordagens de linguagem científica que são dominantes e contrapostas uma a outra. Uma concepção é a objetivista e a outra concepção é a pragmática. Coutinho ( 1996 ), estudando essas abordagens sobre a ciência, explica-nos que a concepção objetivista de linguagem científica "está basicamente vinculada à noção de verdade em termos de correspondência com a realidade e, portanto, está associada à busca do conhecimento do real". A principal direção desta concepção é a procura de leis que possam, com precisão e rigor, descrever e explicar a realidade. A concepção pragmática de linguagem científica é aquela que busca a noção pragmática da verdade. Nela "as formulações são vistas como codificações ou sistematizações que devem ser justificadas para seus respectivos propósitos." (Coutinho, p. 6). A conseqüência dessa concepção é a de
"não haver um único ideal de precisão e rigor, isto é, descrições e explicações dos fenômenos podem ser formuladas de forma precisa para determinados propósitos, mas tal precisão pode ser desnecessária ou mesmo disfuncional para outros propósitos".
Baseada em minhas próprias leituras, e por isso mesmo admitindo um grau enorme de incerteza nesta minha conclusão, percebo que a concepção de linguagem científica na qual se baseia a maioria das investigações clínicas em musicoterapia, é a concepção pragmática. Poucas investigações no campo da musicoterapia estão fundadas na concepção objetivista de linguagem científica. Não há neste comentário nenhum critério de valor. Apreciando as diversas contribuições de estudo para a musicoterapia, verifico que não temos leis de caráter geral. O estudo que mais se aproxima de uma formulação geral é o estudo sobre o "Princípio de Iso Universal", formulado por Benenzon (1996, p 84), significando aquilo que "contém no inconsciente as energias sonoras básicas herdadas de milênio. Estas energias sonoras são características de todo o gênero humano"
Aprofundando esta discussão, ressalto que a visão objetivista em ciência tem recebido, atualmente, suas maiores críticas. E a principal crítica é aquela que a aponta como representante de um sociedade racionalista, que não dá conta dos fenômenos complexos do homem contemporâneo
A outra significação para a palavra vínculo é nó, liame; e liame é "aquilo que prende na liga uma coisa e outra". ( Ferreira, 1992 ).
No nosso caso, o que prende na liga é a música e a terapia. Na avaliação de Bruscia (1991), o que faz a musicoterapia diferente de outras formas de terapia é a confiança na música. A característica básica de uma sessão de musicoterapia é existir nesta sessão uma forma de experiência musical.
É nessa liga que se constrói a nossa prática; e é nela que encontramos um campo enorme de investigação. As questões que envolvem a formação musical do musicoterapeuta, a análise musicoterápica das sessões, a discussão - proposta por Barcellos e Santos (1996) - acerca das diferentes concepções de linguagem musical e suas conseqüências na prática clínica, o estabelecimento do setting musicoterápico constituem alguns dos aspectos incluídos neste campo de investigação.
É importante para nós, 'músico-terapeutas', considerarmos a questão colocada por Pellizzari (1993) sobre a centralidade de um dos termos - música ou terapia como o modificador -, isto é, "se o musical se submete ao terapêutico ou se o terapêutico se submete ao musical." Barcellos e Santos (1996, p. 6), refletindo seriamente sobre esta questão, afirmam que a "centralidade da relação terapeuta-paciente, sem uma afirmação igualmente clara do papel da música, contribuiu para que convergissem para a formação em musicoterapia muitas pessoas sensíveis e interessadas nas possibilidades de uma terapia não verbal mas sem uma base razoavelmente sólida de conhecimentos musicais, e, o que é pior, considerando, que tais conhecimentos poderiam ser substituídos pela sua sensibilidade."
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