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Publicado em 27 de setembro de 2006

A MÚSICA FAZENDO (P)ARTE DAS HISTÓRIAS:
REFLEXÕES SOBRE NARRATIVAS DE VIDA E CANÇÕES
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Patrícia Wazlawick        


Renato Russo dizia que valorizava a mensagem, o que estava sendo dito em sua música, mas também a maneira como tudo estava sendo dito - a emoção - que poderia ser usada com inteligência e sensibilidade.

Parece que a música abre esta possibilidade: pode fazer audível e visível as nossas histórias e momentos delas, onde podemos compreender e significar, dando sentidos (o significado singular) ao que se passa, ao que se vive, a como se vive, ao que se sente, se interessa, se motiva. Músicas, histórias e emoção...

As músicas, ao fazerem parte de nossas histórias, da história que vai se construindo e que depois separamos no tempo passado e presente, faz parte de nosso processo dinâmico da identidade. Música e identidade... mais uma vez relembrada, agora na voz de Raul Seixas Eu prefiro ser esta metamorfose ambulante / eu quero viver nesta metamorfose ambulante / do que ter aquele velha opinião formada sobre tudo...

Histórias, narrativa e identidade

Pensando na idéia da constituição da identidade, constituição de sujeitos, remetemo-nos à narrativa e junto dela enfocamos a narrativa musical, seja em termos de uma canção que porta uma letra que constrói uma narrativa, seja em termos de uma pessoa que se utiliza de uma canção para narrar e dar significado/sentido às suas vivências.

Vamos tentar estabelecer um diálogo com Mishler (2002) a respeito da narrativa e a identidade. O autor tece uma compreensão sobre a questão temporal da narrativa, onde aborda os enfoques de tempo narrativo/experencial e tempo do relógio/cronológico. Segundo Mishler, a "ordem temporal é o critério fundamental que distingue as narrativas dos outros gêneros de discursos" (2002, p. 98). No entanto, o aspecto apenas temporal não é suficiente, uma vez que não será apenas feita uma lista ou uma seqüência de histórias. A narrativa é mais que uma coisa depois da outra. Existe uma conexão significativa entre os episódios que permite reconhecer as falas e textos de trechos como algo definido, e coerente. Talvez a narrativa sobre as histórias de vida, aonde a identidade vai se constituindo seja propriamente este processo de constituir-se que preenche cada momento, estando na base e permitindo uma continuidade visível... e talvez, nas narrativas musicais a própria música, ou a relação com a música permite a configuração deste conjunto. Muito mais que uma música de fundo, mas talvez como parte de uma trilha sonora, onde, sem este som não haveria a menor graça, não teria entonação, energia, força, não haveria movimento nem ação, o fazer-se em silêncio não bastaria... pois a vibração, o som transformado em música se destaca, ajuda a significar... faz-se real, faz-se audível... permite construir sentidos.

Poderíamos neste caso, retomar a metáfora com a música: a própria música acontece no tempo e está organizada numa sucessão temporal dos elementos sonoros. No tempo se estrutura, cresce, se desenvolve e se finaliza. Precisa de um acabamento, pois é uma construção estética (Bakhtin, 2003). Mas neste meio-tempo existe a relação, a interligação dos elementos sonoros formando um sentido musical, o que configura muito mais que uma nota tocada após a outra.

A música tem em sua base o tempo, o pulso, a contagem do tempo onde se estrutura e sem a qual não poderia se organizar. Porém, não se limita a isto. Assim a narrativa se faz de fatos que acontecem no tempo, cronologicamente, mas estes fatos em suas interligações criam enredos, criam tramas, e mais, "a significância de um enredo, que determina como uma seqüência de eventos é transformada em história" (Mishler, 2002, p. 100). Existe algo além do simples acontecer por acontecer, existe a significação dada pelo sujeito.

Mishler (2002) retoma Paul Ricoeur (1980) onde diz que "... toda e qualquer narrativa combina duas dimensões em proporções variadas, uma cronológica e outra não-cronológica. A primeira pode ser chamada de dimensão episódica, que caracteriza a história como sendo feita de eventos. A segunda é a dimensão configurativa, segundo a qual o enredo constrói unidades significativas a partir de eventos dispersos" (Mishler, 2002, p. 100).

Nesta nova visão a compreensão da narrativa dá um salto, isto é, a narrativa não é mais compreendida apenas como "uma coisa depois da outra", mas passa a ser considerada, por exemplo, ao se tomar a metáfora da mão dupla do tempo. O sentido de um final passa a configurar a narrativa de modo que o todo se constrói, o todo se implica a cada momento, o final da história tem uma "função primordial no processo de construção da história ou do seu enredo" (Mishler, 2002, p. 101). O olhar para a história de onde se está agora, que pode ser considerado um final para tudo o que já se viveu, ou pode ser considerado um começo para tudo o que ainda se construirá mostra como cada parte constitui toda a narrativa ao mesmo tempo em que pode significar, a partir de quem vive, de um modo o que já se passou, ou de outro. O enredo é compreendido e significado de acordo com o tempo cronológico, no estrito âmbito do tempo, mas também de acordo com a experiência, com a memória, com o tempo interno aprendido e internalizado do tempo externo.






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