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Publicado em 27 de setembro de 2006
A MÚSICA FAZENDO (P)ARTE DAS HISTÓRIAS: REFLEXÕES SOBRE NARRATIVAS DE VIDA E CANÇÕES Página 2
Patrícia Wazlawick
Aqui é a canção "dizendo" que tem histórias para contar. Obviamente que a música é feita, cantada e tocada por alguém, por uma pessoa, por um grupo de pessoas, e que também pode contar, além de tantas outras coisas, histórias de pessoas. É uma atividade criativa/criadora de pessoas, um fazer artístico-cultural. E depois, mesmo que nós não façamos música, nós podemos nos apropriar de músicas que passam a ser significativas porque significam nossos momentos, nossos sentidos, nossas emoções.
Então, "seja bem vindo ao lar, eu tenho histórias pra te contar"... E aqui, rapidamente, junto do "Nenhum de Nós" e da leitura de Mishler - em um determinado trecho, lembrei-me da Rita Lee que fez um disco com versões suas de algumas canções daquela velha e famosa banda inglesa, dos garotos de Liverpoll: John, Paul, George e Ringo. Em sua versão "Minha Vida" de "In my life" (John Lennon e Paul McCartney), Rita canta:
Tem lugares que me lembram Minha vida, por onde andei As histórias, os caminhos O destino que eu mudei Cenas do meu filme em branco e preto Que o vento levou e o tempo traz Entre todos os amores e amigos De você me lembro mais Tem pessoas que a gente Não se esquece nem se esquecer O primeiro namorado O primeiro namorado Personagens do meu livro de memórias Que um dia rasguei do meu cartaz Entre todas as novelas e romances De você me lembro mais Desenhos que a vida vai fazendo Desbotam alguns, uns ficam iguais Entre corações que tenho tatuados
De você me lembro mais De você, não esqueço jamais!
Não direi nada agora. Talvez a letra da música já diga por si própria.
E mais uma vez - este trabalho está propiciando algo interessante para mim - recordei daquela quarta série do primeiro grau. Teve um dia, na fila do recreio, antes de subirmos para a sala de aula, que as "gurias" fizeram uma rodinha em volta de uma colega que cantava uma letra enorme de música. Ela tinha fôlego, parecia uma história, parecia que estava orgulhosa de ter decorado tudo aquilo, e todas ouviam atentas. Para mim era novo - para dizer a verdade eu não entendia quase nada do que ela cantava - a história estava um pouco sem nexo para mim, era diferente - não era parte do repertório "formal" das crianças da época. Lembro que tinha um "cara que roubava o dinheiro que as velhinhas colocavam na caixinha do altar"... Ai meu Deus. Que coisa estranha. Um tal de Santo Cristo...
Depois de um tempo é que fui entender. Tínhamos na época os incríveis dez anos de idade. Esta colega tinha uma irmã mais velha, já adolescente, com seus treze ou quatorze anos. Sua irmã cantava e ela aprendeu então, um novo e grande sucesso da banda Legião Urbana, "Faroeste Caboclo" - grande no sentido de ser um ótimo sucesso e também no sentido de grande mesmo, a música que ouvíamos nossa colega orgulhosamente cantar tinha - e tem - aproximadamente uns nove minutos. Nove minutos de narrativa! De história mesmo. Renato Russo, seu autor, foi um roqueiro, um poeta, um letrista. Foi o autor de longas narrativas como "Faroeste Caboclo", "Eduardo e Mônica", também podemos ver isto em "Pais e Filhos" e "Dezesseis", entre várias outras de sua obra. Algumas pessoas dizem que ele foi um ótimo contador de histórias, mas histórias que estavam transmutadas em canções.
As letras de Renato Russo continham rebeldia, busca de verdades, dúvida e indignação recheadas de contradições com as quais muitas pessoas se identificam - e se identificam na semelhança e na diversidade. Ele dizia que escrevia de uma maneira que as pessoas pudessem se apossar de suas canções. Talvez porque as pessoas viviam situações semelhantes ou diferentes, talvez por que a música intensificava o que viviam, talvez por que refletisse suas histórias e as fizesse compreender algo delas, a partir da relação entre a história e a música, talvez por que simplesmente gostassem... ou até, talvez por que as músicas lhe possibilitasse uma outra dimensão na vida, a dimensão do sentir, da emoção, do sentimento, a dimensão da sensibilidade, e por que não podemos dizer, da humanização?
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