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        Textos

Publicado em 27 de setembro de 2006

A MÚSICA FAZENDO (P)ARTE DAS HISTÓRIAS:
REFLEXÕES SOBRE NARRATIVAS DE VIDA E CANÇÕES

Patrícia Wazlawick       


O que me surpreende é o fato de que, em nossa sociedade, a arte se tenha transformado em algo relacionado apenas a objetos e não a indivíduos ou à vida; que a arte seja algo especializado ou feita por especialistas que são artistas. Entretanto, não poderia a vida de todos se transformar numa obra de arte? Por que deveria uma lâmpada ou uma casa ser um objeto de arte, e não a nossa vida?
(Michel Foucault, s/d).


Este texto foi escrito enquanto ainda estava cursando o mestrado em Psicologia, no ano de 2004. Talvez seja um escrito fruto mais de reflexões pessoais a partir de muitas leituras, especialmente do período de mestrado, mas também de momentos anteriores, e, como não poderia deixar de ser, de uma história toda permeada pela música. Talvez as co-relações com o material sonoro-musical me ajudem a construir um texto mais vivo, cheio de sentidos, sem aquele "vazio frio" que muitas vezes encontro em alguns textos. Talvez eu tenha essa necessidade, ou idéias... Talvez porque o texto pode também não só dizer, mas trazer música, canções, histórias e suas trilhas sonoras...

Comecei a ler Elliot G. Mishler (2002) em seu texto "Narrativa e identidade: a mão dupla do tempo". A partir deste texto, as idéias que apresentarei aqui foram sendo construídas. Quer dizer, não foram exatamente sendo construídas a partir de Mishler porque na construção da temática de pesquisa de mestrado eu já havia iniciado esta relação. Mas agora vejo que esta relação já se configurava na época da graduação em Musicoterapia, quando as canções e as histórias das pessoas se entrecruzavam, e eu me pegava fascinada pela beleza desta relação e pelo "mistério" das canções. Parecia que as pessoas "cantavam" e contavam suas histórias com elas. No entanto, mais uma ressalva, relembro hoje as imagens de momentos de minha vida onde canções específicas estiveram presentes, e significaram aqueles momentos para mim, significaram meus sentidos naqueles momentos. As canções significando os sentidos singulares...

Talvez este caminho todo, que se iniciou há muito tempo tenha hoje um outro momento - seu outro momento de significação, de compreensão. Tantos "se dar conta"... pequenos momentos de construção de sentidos...

Mas o ponto é este: as pessoas contam suas histórias, narram, tecem suas narrativas, mas também cantam essas histórias, fazem uso da música, e ao mesmo tempo usam as canções e a música para significar estes momentos.

Foi então que lendo Mishler, veio-me a canção "Sinais de Fumaça", de Thedy Correa e Veco Marques, na voz do cantor da banda gaúcha de rock "Nenhum de Nós". Desde a infância eu recordo as canções dessa banda que ouvia no rádio: "O astronauta de mármore", "Camila Camila", "Extraño" e "Sobre O Tempo". Quanto eu as escutei, quanto as cantei. Uma vez, lembro, foi em 1989, eu estava na quarta série do primeiro grau (hoje ensino fundamental), e na sala de aula, após voltarmos do recreio, pela iniciativa de um colega que também "se dava" com a música (ele cantava, tocava teclado e apresentava-se pela cidade), começamos a cantar "O astronauta de mármore", todos juntos, no início de uma aula de língua portuguesa - inclusive a professora. Não dissemos nada. Apenas cantamos. E aplaudimo-nos no final.

Bem, preciso retornar ao trabalho que escrevo agora - porém, isto acontece. As músicas marcam os momentos que vivemos, e estes, que compõe nossa história, estão presentes na memória, foram significativos. Ainda não sei como explicar, talvez nem consiga, por enquanto, formalizar uma compreensão de como as músicas vão além e são mais que apenas parte de trilhas sonoras, pois elas constituem histórias.

Mas voltando à narrativa presente, eu encontrei "Sinais de Fumaça" no final do ano de 2003, em um disco da coleção Acervo Especial do "Nenhum de Nós". E esta canção se torna interessante para mim, neste momento, porque ela canta, em sua letra, o que intenciono com minha pesquisa de mestrado:


Histórias de garotos e garotas
Tantas palavras ditas entre os dentes
Entre os dentes...
A palavra certa, os sinais
Sinais de fumaça e eu me sinto mal
Mal...
/: Seja bem vindo ao lar
Eu tenho histórias pra te contar :/
arrafas de fumaça guardam o que eu sei
Porões de sabedoria que vão desaparecer
Desaparecer...
Tantas palavras vazias entre os dentes
Entre os dentes...
/: Seja bem vindo ao lar
Eu tenho histórias pra te contar :/





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