
Ouça "Sufoco da vida", do Harmonia Enlouquece, no GloboRadio
“Estou vivendo no mundo do hospital/ Tomando remédios de psiquiatria mental/ Haldol, Diazepan, Rohypnol, prometazina/ Meu médico não sabe como me tornar um cara normal”, diz a irônica letra de “Sufoco na vida”, assinada por Hamilton de Jesus e Alexandre Machado.
“Eu escrevo sobre tudo. Antes era mais sobre a psiquiatria, porque eu era isso. Hoje outras coisas acontecem na minha vida, tenho música para tudo”, conta Jesus, vocalista do grupo desde sua fundação, que canta, toca violão e percussão, compõe e desenha.
Diagnosticado com esquizofrenia, Jesus é militar e está tentando ser reformado. Diz que sofreu tortura no quartel e toma medicação até hoje. Não trabalha -“sou interditado, não tenho como assinar carteira”- e vive para a música. Passa seus dias no Centro Psiquiátrico, mas já pode voltar para casa à noite.
“Alguns querem que a gente fique enclausurado. As pessoas acham que a gente só sabe rasgar dinheiro e comer cocô. Não é isso. É um sofrimento psíquico. Você tem uma úlcera, muita gente pode não acreditar em você, porque não está vendo. É a mesma coisa. Só chora pela dor, quem sente. Imagina como é viver com um monte de remédio. A gente também precisa ser livre.”

Ele diz que, justamente pela falta de informação sobre transtornos mentais, a discussão proposta por “Caminho das Índias” é tão importante. “É ótimo, mas não pode terminar a novela e morrer o assunto. Tem que ser uma discussão permanente, ter continuidade nas empresas, na imprensa, nas escolas. Dar nitidez para as pessoas leigas. Quem sofre desses distúrbios é muito carente”, afirma.
O reconhecimento de ter uma canção na trilha sonora da novela, ele diz que é de todos do grupo e também dos que lutam pelos pacientes psiquiátricos, na maioria das vezes enfrentando dificuldades. “Com nosso trabalho, a gente mostra que é digno e que não tem que viver só na clausura. O pior é o esquecimento total.”
Dantas concorda: “De modo geral, as pessoas tendem a achar que eles são agressivos, violentos. Ficam encantados quando veem que não são um bando de malucos fazendo coisas aleatórias”.
Depois que passou do muro do hospital, não parou mais
O musicoterapeuta explica que o transtorno mental tem a ver com dificuldade de comunicação, muito estimulada pela música. “O manuseio de um instrumento musical já ajuda muito”, conta.
O grupo hoje tem 13 pessoas, “incluindo funcionários, duas assistentes sociais no vocal, um médico na percussão, técnicos e nove usuários”. “Eles fazem músicas de amor, do cotidiano, ganharam o espaço além do hospital. E depois que passou do muro do hospital, não parou mais”, afirma.
Jesus confirma a eficiência do trabalho. “Iniciei o projeto e fui o único a continuar até hoje. Eu não queria ficar lá no hospital fumando e não fazendo nada. Gosto de exercitar a mente. Gosto de fazer os outros felizes e de ser feliz um pouco também. Porque o que eu consigo fazer, faço de coração.”
Fonte:http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1061768-7085,00-BANDA+DE+PACIENTES+PSIQUIATRICOS+ESTA+NA+TRILHA+DE+CAMINHO+DAS+INDIAS.html