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Publicado em 17 de junho de 2006
O DIÁLOGO SONORO E A QUESTÃO DO TERCEIRO OBJETO E A MUSICOTERAPIA
Dr. Pedro Antonio de Souza
O ser humano, por excelência, é um ser comunicante. No seu mais absoluto isolamento ele comunica que não quer se comunicar. Existem gradações diferentes neste acesso, portanto soluções diferentes para situações diferentes.
A doença mental invariavelmente altera a relação; dá nova qualidade à dinâmica da comunicação.
Consideramos o doente mental uma estrutura humana com dificuldades no intercâmbio inter e intrapessoal propicia, portanto, a se organizar progressivamente com maiores dificuldades de troca.
A doença mental se apresenta com varias nuances e isto suscita diversificação de técnicas e abordagens.
A Arteterapia busca a integração dinâmica, a comunicação adequada e sintônica entre o indivíduo e o meio através da utilização e aproveitamento do seu potencial. Tem como recurso a linguagem auto-expressiva, ou seja, ela se referencia no saldo expressivo do sujeito e na sua estrutura central de comunicação.
Através do diálogo adequado promove uma ampliação do mundo de relação.
Consideramos a Musicoterapia uma das formas de Arteterapia (todas as demais formas de expressão podem ser utilizadas arteterapeuticamente). O seu elemento central e básico é o diálogo sonoro.
Todo indivíduo é em si uma música como também um desenho e mesmo uma peça Teatral.
Numa situação musicoterápica cabe diagnosticar que estrutura é esta, saber qual a sua célula expressiva, conhecer suas características e buscar a sintonia através do diálogo sonoro adequado (isto independe de padrões harmônicos rígidos).
Exemplo: um individuo regredido com 12 anos, relaciona-se pouco com os demais e apresenta-se com constância de movimentos de flexão e extensão do tronco. Graficamente está representado como segue abaixo:

A sua célula expressiva e o tempo de

A conversa com este indivíduo deverá se dar dentro de sua linguagem, fazer o diálogo sonoro, formar um bloco expressivo:
Exemplo:

Outros exemplos:

Estes são exemplos bastantes simplificados de diálogo sonoro.
O importante é não se fazer a somatória de monólogos.
Consideramos o TERCEIRO OBJETO a resultante da comunicação, o momento mesmo em que a relação se dá, é o momento no qual não há hegemonia das partes terapeuta e paciente mas sim um equilíbrio dinâmico entre suas diferenças.
A Arteterapia se processa na criação dos Terceiros Objetos e em Musicoterapia este é naturalmente musical.
Cria-se, então, o seguinte processo: diálogo sonoro ------------ bloco expressivo------ terceiro objeto. Dentro desta dinâmica é que se irá acompanhando as modificações da música inicial que constituía o paciente.
O musicoterapeuta deverá usar os conhecimentos da linguagem musical para poder documentar o diálogo sonoro e principalmente para conhecer o monólogo que é o doente mental.
Estabelecendo o Bloco Expressivo o musicoterapeuta pode começar a assumir a liderança natural do atendimento.
Uma vez esgotado pelo paciente um dado recurso expressivo, ele passará a outra forma. Isto caracteriza situação de desenvolvimento - é a linguagem do processo.
Na pratica é coragem de se chegar a novas.formas, criar terceiros objetos, o paciente se organiza e amplia seu espaço; diminui a defasagem que existe entre seu potencial e o seu manifesto.
A Arteterapia na sua forma global ajuda e possibilita o indivíduo livrar-se e libertar-se da linguagem auto-expressiva, individualista e não-socializada.
Ela ajuda o indivíduo na inteiração dinâmica com o seu meio através da prática do diálogo auto-expressivo, centrado inicialmente no paciente para posteriormente este mesmo indivíduo poder participar de uma realidade adequada.
Ela, como prática, ajuda o indivíduo a entrar no seu discurso e a se aproximar da linguagem codificada. Também chega a se dar conta de suas limitações bem como inteirar-se de suas potencialidades.
Em síntese, a Arteterapia leva o indivíduo a realidade clínica do ser saudável, qual seja, o ser que encontra uma coerência nos modelos contraditórios da própria vida.
A Arteterapia, como Musicoterapia arteterapeuticamente compreendida não falam de dialética e sim vive com o paciente o momento dialético em si mesmo.
No diálogo sonoro não está em jogo a capacidade musical do paciente, mas sim o seu ser global, as suas áreas mentais e corporais interligadas o que nos dá a síntese do indivíduo. O mesmo indivíduo que nada mais é que a resultante de sua historia e da historia da humanidade.
É numa relação terapêutica que estamos diante do mais complexo e igualmente rico, dos TERCEIROS OBJETOS, o indivíduo humano.
Trabalho apresentado na 1a Maratona de Musicoterapia, organizado pela Associação Brasileira de Musicoterapia, no CBM - Rio de Janeiro, 30 de agosto de 1980.
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