USANDO A VOZ: MUSICOTERAPIA NA REABILITAÇÃO DA LINGUAGEM: A CANÇÃO NA REABILITAÇÃO DO AFÁSICO MOTOR
MT Rosana Saldanha Silva
Este trabalho pretende pensar de que forma a utilização de canções pode auxiliar na reabilitação da linguagem em pacientes afásicos. A afasia é um distúrbio pós-traumático característico do Acidente Vascular Encefálico (AVE), ocasionando déficits neurológicos relacionados à linguagem. O terapeuta que trabalha especificamente a linguagem nesses pacientes é o fonoaudiólogo, podendo haver uma enorme contribuição de práticas da musicoterapia para o processo de reabilitação. Este relato é baseado na observação de um caso clínico que acompanhei logo após a ocorrência do AVE, no mesmo período em que realizava estágio no setor de Musicoterapia da ABBR e cursava especialização em Musicoterapia. Primeiramente os atendimentos foram realizados em domicílio, depois a paciente foi para a ABBR sendo encaminhada para os setores de Fisioterapia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional e Musicoterapia.
Durante a fase de atendimento domiciliar, procurei aproximar os conhecimentos de fonoaudiologia e os recentes conhecimentos de musicoterapia. Uma ferramenta me pareceu bastante eficaz: a canção, por juntar elementos musicais e textuais. Quando uma música conhecida é trazida à memória, o texto a acompanha e torna-se mais fácil para o paciente o produção do gesto articulatório necessário para fala. O ato de cantar também traz para o paciente um bloco de sensações, atuando na motivação, imprescindível para os processos de terapia.
O processo de reabilitação da paciente foi bastante satisfatório em relação à linguagem. Logo após o acidente apresentava um quadro de mutismo (sua afasia era de predomínio motor), depois conseguia fazer sons, mas não articular palavras. Após dois meses já podia comunicar-se bem oralmente e razoavelmente bem na escrita. A paciente foi estimulada a ouvir músicas de sua preferência enquanto fazia certas atividades e a cantar sem se preocupar em errar ou não a letra, sendo enfatizado a importância do gesto articulatório do para produção da fala. Ingressou na ABBR seis meses após o acidente, ainda com seqüelas motoras, e permaneceu lá por um ano em terapia. Pude observá-la nesse período, fazendo parte de um grupo no setor de musicoterapia.
Os principais objetivos deste setor estavam no auxílio da reabilitação motora e na relação psicossocial. Os grupos são muito importantes para a integração coletiva destes pacientes, constituindo um espaço aberto para que os anseios e as angústias sejam discutidos e compartilhados. O grupo que a paciente participava era bastante heterogêneo, reunindo diferentes tipos de seqüelas (motoras e/ou cognitivas), e a relação dos pacientes com as músicas também era bastante diferenciada. Havia alguns, por exemplo, que não gostavam de cantar. A técnica de recriação musical com canções só pode ser benéfica quando associada ao prazer.
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