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        XI Fórum


Orquestrando a Clínica - Aspectos Éticos

Márcia Godinho Cerqueira de Souza         


Um dos aspectos éticos que devo abordar, é a necessidade do profissional Musicoterapeuta estar aberto para os novos conhecimentos, já que a ciência, sendo provisória, nos coloca a cada dia o desafio de repensar nossas atitudes e procedimentos.

Nisto, lembrei-me de algo que escrevi anteriormente sobre a necessidade do Musicoterapeuta estar aberto para o novo, e me reporto ao escrito: "...Quero aqui colocar que quando falo abertos para o novo conhecimento, acredito de antemão que os princípios que regem e fundamentam a Musicoterapia enquanto profissão científica e terapêutica no estudo, pesquisa e tratamento de diversas problemáticas, esteja dentro de cada um de nós para que no momento de se descobrir novos caminhos ou atuar terapeuticamente, você Musicoterapeuta não duvide do potencial de tratamento da profissão que escolheu.

Se toda prática é teórica, portanto a ética não é divorciada da ação. O pensar e o fazer na orquestração desta clínica, são inseparáveis. Nós, como Musicoterapeutas, possuímos movimentos e ações, teorias e técnicas que devem beneficiar a atividade fim de uma atuação profissional, que é o bem-estar e qualidade de vida de ser do seu cliente.

A autêntica formação, seja ela formal ou informal, é aquela que não para no tempo, mas faz seu caminho junto dele: é aquela que despotencializa a "fôrma" e potencializa a forma trazendo à tona novos e renovados conteúdos.

Musicoterapia, entendendo-a como "o procedimento com o qual vem construído um sistema meramente sintático de símbolos. Sistema regido por alguns axiomas"; como por exemplo os princípios básicos de Musicoterapia; os de ISO e OBJETO INTERMEDIÁRIO, dos quais, conforme as regras sintáticas do próprio sistema, irão derivar novas fórmulas dentro do grupo destes axiomas. Sabemos que a música, por ser linguagem universal, vem possuída de signos e símbolos que por si só caracteriza e especifica uma cultura, retratando sonoramente os modos de ser de um povo.

Verifico, portanto, que um outro aspecto ético se dá no viés de uma formação coerente com os aspectos culturais, seja este termo, aquele pelo qual "significa a formação do homem, o seu melhorar-se e refinar-se, ou pelo seu segundo significado, aquele pelo qual indica o produto dessa formação, isto é, o conjunto dos modos de viver e de pensar cultivados, civilizados, que se costumam também indicar pelo nome de civilização".

Um outro aspecto ético, ao meu ver, está na identidade de ser Musicoterapeuta. De onde parte, de onde vem, eu pergunto, a identidade deste SER Musicoterapeuta? É necessário que devamos nos identificar com a linguagem que iremos trabalhar, nos relacionar e intercomunicar?

Como profissionais Musicoterapeutas, possuímos e estabelecemos uma unidade de pensamento sobre o que seja música? Como a definimos? Existe uma unidade de substância no pensamento dos Musicoterapeutas em relação ao seu objeto de trabalho? A Música como terapia? A terapia através da música? O que é música?

Nos aspectos éticos, que determinam o círculo por onde transitaremos, verifica-se necessário, entrar no círculo mas não ficar nele dando voltas, é necessário entrar para poder ultrapassar, ultrapassar para não evitar as dificuldades que a multiplicidade nos apresenta. Quando temos os códigos profissionais institucionalizados, possuímos o apoio estático e "legal". Por outro caminho, na orquestração da clínica, a ética está na dinâmica do fazer, de ser e fazer, e de fazer ser.

E que fique cada vez mais firme para nós, que no terreno movediço da ética, esta é uma teoria do ser e da existência humana e suas finalidades. E nós queremos o quê? Queremos ser e fazer? Queremos ter para ser? Ou queremos determinar o bem para poder fazer?

Minha resposta para tantas questões pode estar neste fragmento de Humbolt: ... Os homens se entendem não porque se comuniquem realmente os símbolos das coisas, nem porque se determinem mutuamente para produzirem exata e perfeitamente o mesmo conceito, mas porque tocam uns nos outros, no mesmo elo da corrente de suas representações conceituais e batem nas mesmas teclas do seu instrumento espiritual e, em conseqüência disso, em cada um deles brotam conceitos correspondentes, mas não iguais

( ... ) Quando é tocado o elo da corrente, a tecla do instrumento, todo o complexo vibra, e aquilo que brota da alma como conceito se encontra de acordo com tudo aquilo que circunda cada elo até a distância mais remota.

Destas palavras vemos que o que constitui a base segura e a garantia da objetividade de uma formação e identidade que nos leve ao exercício da ética, é o acordo na infinitamente variada produção de termos e conceitos, e não a simples reprodução neles de alguma coisa existente.

A formação busca novos conhecimentos e reconhecimento do já sabido, desdobra-se cada vez mais. Identificamo-nos com uma formação, e ao exercê-la, temos uma identidade formal e legal de Musicoterapeuta. Aquele profissional que atuará no crescimento, desenvolvimento de outro ser idêntico a ele no que se refere ao homem musical e esta substância é o fio condutor de um processo Musicoterápico.

Minha ética, sua identidade, nossa identidade ética, podem ter tido a formação semelhante e, muitas vezes idêntica, mas a essência sonoro musical pré-existe, e esta essência, é o que é. Para termos uma unidade da nossa identidade e nos aspectos éticos como profissionais em Musicoterapia, é necessário que não percamos nossa essência como ser-sonoro, aquele que acredita na música como o "grande canal': das profundezas à superfície, da superfície às profundezas, a grande ponte, onde posso ir e vir, como no mito de Orpheu; entrando em contato, elaborando, estruturando o pensar e o agir do ser no mundo e consigo mesmo.

No meu entender, a música para nós Musicoterapeutas, representa o canal por onde transita o ser em toda a sua complexidade; do caos à estruturação do belo no homem.

Segundo Schoppenhauer, a música difere de todas as outras artes por não ser cópia do fenômeno, ou mais corretamente, da objetividade adequada da vontade, mas cópia imediata da própria vontade. E na contemporaneidade em que vivemos, os paradigmas estão aí para serem rompidos, estamos diante de uma crise ética, por isso mesmo estão aí os desafios.

É necessário ousar. É necessário ousar? As possibilidades estão lançadas





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