MUSICOTERAPIA EM ONCOLOGIA PEDIÁTRICA
Jacila Maria da Silva
O presente estudo foi realizado a partir de questões que surgiram, na prática clínica, da equipe de MUSICOTERAPIA da Casa Ronald McDonald. Esta prática consiste na MT em Oncologia Pediátrica. A equipe atuante, que elaborou este estudo, conta com as seguintes musicoterapeutas, sob a supervisão da Mt. Marly Chagas: Adriana Hees, Andréa Farnettani, Bianca Bruno, Daniela Perissé e Jacila Silva.
O atendimento de MT na Casa Ronald iniciou em março de 1996, com uma equipe formada por dois musicoterapeutas e três estagiários do Curso de Formação de Musicoterapeutas do Conservatório Brasileiro de Música. Atualmente, a equipe de MT é formada por quatro musicoterapeutas e dois estagiários. Este atendimento é um projeto desenvolvido pelo Grupo Quiron na Casa Ronald, sob a coordenação da Mt. Marly Chagas.
Tendo em vista as questões mais relevantes, pretendemos abordar os seguintes aspectos:
1- A Casa de Apoio Ronald McDonald: descrição e objetivo.
2- MT em Oncologia Pediátrica
2.1- Pressupostos teóricos
2.2- Metodologia de trabalho
2.3 - Características específicas da MT em Oncologia Pediátrica
2.4 - O grupo aberto e o espaço terapêutico: a questão do setting musicoterápico
2.5 - Objetivos da MT em Oncologia Pediátrica
2.6 - As sessões de MT e os seus conteúdos manifestos
2.7 - Questões para reflexão: a questão do corpo e a equipe de MT
3 - O Congresso de Psico-Oncologia e as novas perspectivas de estudo e trabalho da MT em Oncologia.
4 - Conclusão
1 - A CASA DE APOIO - RONALD McDONALD:
A Casa Ronald McDonald é uma casa de apoio que recebe crianças e adolescentes, que estão em tratamento ambulatorial no hospital. Questões como: a distância (entre a moradia do paciente e o local de tratamento) e a falta de recursos (dificuldades financeiras da família), foram relevantes para a construção desta Casa de Apoio. Em conseqüência desses fatores, ocorria um alto índice de abandono e violação no plano do tratamento, reduzindo as chances de cura. Sendo assim, a criação desta Casa de Apoio, visou atender à tais dificuldades e necessidades. Para tanto, a rede McDonald's realizou em 1992 e 1993 o Mc Dia Feliz, doando a arrecadação do evento para a Associação de Apoio de Crianças com Neoplasia. Isto possibilitou a compra da casa, que passou a ser a Casa de Apoio Ronald McDonald.
A casa localiza-se na Tijuca e hospeda no máximo vinte crianças ou adolescentes, com um dos seus respectivos responsáveis. É mantida através de doações, do evento Mc Dia Feliz (que se mantém até então) e de trabalho voluntário. Atualmente, a diretoria está elaborando um projeto de ampliação da casa, para atender a demanda existente.
Enfim, a Casa tem por objetivo hospedar crianças e adolescentes no período do tratamento ambulatorial, visando tanto torná-lo viável, quanto oferecer um melhor ambiente durante este processo. Assim, em última análise, a casa corresponde à expectativa de um sistema que possa oferecer uma melhor qualidade de vida aos pacientes com neoplasia.
2 - MUSICOTERAPIA EM ONCOLOGIA PEDIÁTRICA
2.1 - Pressupostos Teóricos:
2.1.1 - A concepção de música no processo musicoterápico:
A música exerce funções expressivas e classificadoras no processo musicoterápico. Desviando o eu e seus mecanismos de defesa, permite a emergência dos nossos conflitos e das nossas emoções. O musicoterapeuta escuta a expressão sonora como sonora-histórica, carregada de história e de sentido. Para ele, a expressão sonora é o discurso do sujeito, discurso carregado de sentidos e, por isso, objeto através do qual se dá a terapia.
A música nos dá a oportunidade de onde não podemos dizer, "cantarmos". Enfatizamos aqui principalmente a qualidade não¬verbal da música, já que muitas vezes quando ainda não é possível organizar verbalmente nossas emoções, podemos expressá-las sonoramente, para 'só depois' a elaborarmos e significarmos. Também pode ocorrer tomarmos emprestado a expressão de um outro para que possamos dar vazão à nossa própria expressão.
Na produção sonora está envolvida a produção de uma nova "realidade". No 'fazer música', o cliente transpõe suas fantasias para a criação musical. Talvez isso reduza a transposição do material recalcado em sintomas, pois aqui o cliente encontra uma outra forma de lidar com seus desejos. É diante deste lugar especial que a arte ocupa, lugar da irrealidade, que o cliente pode atingir uma realização/sublimação, retomando o caminho da sublimação em contraposição ao da produção de sintomas; o que em última instância pode significar, um percurso para o cliente retomar a saúde.
2.1.2 - A relação musicoterapeuta-cliente:
Falar de relação em musicoterapia é falar da interação musicoterapeuta-cliente, onde o cliente expressa acompanhado pelo terapeuta e significa essa expressão através do terapeuta.
2.1.3 - A questão do sentido na MT:
O sentido da expressão musical será dado tendo como referência a relação terapeuta-cliente. Nesta seqüência de pensa¬mento, tomamos a formulação psicanalítica de que o sentido do sujeito é, sem dúvida alguma, o próprio sujeito, pois este se projeta em suas enunciações. Enunciar o sentido de algo é enunciar o próprio sentido; o que possibilita ao sujeito a expansão de si mesmo. Não estamos falando aqui do que se apresenta em si mesmo como "realidade", e sim do que se apresenta no plano do simbólico, onde as criações do sujeito serão sustentadas pela experiência transferencial.
2.1.4- O papel do musicoterapeuta:
Cabe ao musicoterapeuta ser capaz de escutar a expressão do cliente e de intervir na medida em que seja propício, para facilitar a emergência dessa expressão. O que vai se configurar como criação musical se dá a partir das intervenções do musico¬terapeuta e, concomitantemente, da interação musicoterapeu¬ta-cliente. Esta criação está carregada de sentido.
O musicoterapeuta irá partir de um sistema simbólico "objetivo" (sonoro-cultural), para chegar a um sistema simbólico "subjetivo" (singular).
2.1.5- A escolha sonoro-rítmico-musical:
A escolha sonoro-rítmico-musical na clínica musicoterápica se dá por associação livre, trazendo derivados do Ics. ao Cs.
2.1.6- O paciente:
O paciente pode, junto com o terapeuta, utilizar a música como canal expressivo, através do qual irá liberar suas emoções. Com a liberação dessas emoções que estavam contidas, o paciente pode examinar melhor seus conteúdos e, por vezes, encontrar novos caminhos para a solução de seus problemas
2.1.7 - A interpretação em MT:
A interpretação em musicoterapia vai sendo feita a partir do sentido atribuído pelo cliente à sua expressão sonora.
2.1.8- A resistência:
Muitas vezes a resistência do cliente é burlada pela música emergente, deixando vir o que se faz oculto.
2.1.9- A construção em MT:
Através da improvisação musical, o cliente poderá experimentar novos caminhos, novas formas de funcionamento. Este processo trará ao cliente a oportunidade de ampliar seu campo objetal, dando vazão ao surgimento do novo. Somente num espaço aberto à expressão, respaldado pela relação com o outro, que o cliente poderá experimentar e, quem sabe, dar vazão as irrupções do inconsciente, que se apresenta como o novo.
É neste sentido que vamos falar da construção enquanto processo terapêutico. Construção esta que estará ligada ao pro¬cesso de criação, da experiência de criar algo novo; de criar novas formas de ver e ouvir, de perceber o mundo. Isso ocorre em decorrência da nova forma do sujeito se perceber.
Em continuidade, é nesta expressão que o terapeuta estará atento às possíveis falhas, aos vazios; espaços onde o cliente não significa, não consegue atribuir sentido algum. São nestes espaços que na interação terapeuta - cliente, serão construídos o que é novo, num processo de pura criação sonora.
Assim o musicoterapeuta, junto com o cliente, investirá de significados o que não faz sentido. Construirá pouco a pouco com O cliente sua canção, em última instância, sua história. Neste trabalho, o tema do cliente será o traço, a marca que irá guiá-los, garantindo a fidelidade da construção. Os trechos de ritmo, melodia, sons desconectados, ou harmonia; farão parte do 'mosaico sonoro' do cliente, e serão reunidos e ligados pouco a pouco neste processo. Encontrar a 'identidade sonora' é encontrar um caminho mais criativo para dar conta da sua história.
Vale citar Deleuze:
"Não se trata mais de dizer: criar é relembrar, mas, relembrar é criar, é ir até o ponto em que a cadeia associativa se rompe, escapa ao indivíduo constituído, se transfere para o nascimento de um mundo individuante".
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