AMT-RJ


A AMTRJ é membro da:

Site da UBAM
União Brasileira das Associações de Musicoterapia

World Federation of Music Therapy
        XI Fórum


Orquestrando a Clínica: Aspectos Clínicos e de Supervisão


Musicoterapeuta  Marly Chagas        


A supervisão como um espaço profissional

Hoje, 30 anos depois da inauguração da ABMT - RJ, atual AMTRJ, convivemos com uma situação profissional bastante ampliada. Temos, no Brasil,: quatro cursos de graduação; dois cursos de pós-graduação; múltiplas formas de atuações profissionais; diversas realizações científicas, tais como, simpósios e encontros; a publicação de uma revista em caráter nacional; vários títulos publicados de autores nacionais e internacionais; uma organização da categoria na União Brasileira das Associações de Musicoterapia (UBAM); a criação de um código de ética, recomendado em caráter nacional a todas as Associações; a participação de profissionais brasileiros em movimentos técnico­científicos internacionais.

Sendo profissionais nesse nosso país, regido pelas expectativas de uma economia neo-liberal, vivendo a mais acirrada crise recessiva dos últimos tempos, fazemo-nos sobreviventes. Pertencendo a esse enorme Brasil, com uma grande população carente de recursos técnicos especializados para o atendimento de suas necessidades e, portanto com dificuldades de minorar o sofrimento de nosso povo, dispomos de muito poucas estratégias oficiais de implementação de projetos públicos de saúde. E, é claro, a Musicoterapia também não ocupa o espaço que deveria num projeto de saúde que sonhamos e necessitamos.

 

"O aumento do desemprego, da marginalidade, da desassistência, da violência, do desespero, da solidão, do consumo maciço de drogas- legais e ilegais- e do alcoolismo não é um fenômeno isolado, desvinculado das políticas praticadas pelo ne¬oliberalismo hegemônico. Essa degradação é conseqüência direta dessas políticas e integra o coração da racionalidade do modelo neoliberal, ao qual acompanha por toda parte como uma sombra”. (Platino, p.5)

 

Esta realidade político-econômica tem conseqüências específicas na nossa atividade profissional. Por um lado, o musicoterapeuta recém formado vive ansioso pela possibilidade de aplicar seu conhecimento, necessitando trocar experiência e afirmar-se profissionalmente - o que só através da prática clínica pode ser provido -; e por outro lado, o musicoterapeuta já atuante no mercado de trabalho, se vê diante de uma carreira iniciante, que solicita dele atuação e responsabilidades que ultrapassam sua possibilidade de desempenho pessoal - exige-se, a cada situação singular o esforço para construir uma história profissional coletiva. Esse esforço desmedido gera, na maioria das vezes, vivências de isolamento e solidão. Já não bastaria o fato de o trabalho clínico, tão caracteristicamente em nossa profissão, ser, ele mesmo, um acontecimento solitário?

Partindo dessa perspectiva, pretendo refletir sobre a super­visão em Musicoterapia, considerando-a como um espaço profissional necessário e legítimo para cumprir a realização da função de troca de experiências, de fomentação do crescimento profissional e do combate ao isolamento profissional alienante, tendencioso e empobrecedor. Ao contrário da tendência histórica - a supervisão ocupando o lugar do controle (ver em Band, 1996) na formação psicanalítica - para nós, os musicoterapeutas, a super­visão vem constituir-se em um importante fórum para aconteci­mentos profissionais e pessoais.

 

Muitas vezes o musicoterapeuta procura um profissional­não musicoterapeuta - da área de saúde para ser seu supervisor. Vai, impelido por questões que envolvem o inter-relacionamento com o seu cliente, ou movido por dúvidas em relação ao conhecimento sobre as diversas patologias. Vai buscar, com médicos, psicólogos, fisioterapeutas ou algum outro profissional conceituado, um conhecimento que venha amenizar a sua angústia.

 

Nesse caminho, o musicoterapeuta acaba percebendo que, se algumas questões puderam ser resolvidas, outras tantas, que envolvem a própria natureza da especificidade do nosso saber, não puderam ser atendidas.

 

"A falta do entendimento da supervisão clínico bem como da natureza da musicoterapia e dos problemas específicos que ocorrem com os musicoterapeutas freqüentemente coloca - os musicoterapeutas - numa posição de, mais uma vez, se verem explicando sobre a musicoterapia e justificando esta proposta”.(Stephens, 1984)

 

Em função das questões levantadas, torna-se importante procurar praticar a supervisão em musicoterapia coordenada por musicoterapeuta. Trata-se da perspectiva de formar um novo enquadre onde a supervisão musicoterápica torna-se ela mesma um veículo de afirmação da identidade do profissional e um potencial reassegurador da validade do setting não verbal.


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